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Armando Côrtes-Rodrigues, folclorista, de Ponta Delgada
Músicos naturais do Concelho de Vila Franca do Campo

Projeto em desenvolvimento, o Musorbis aproxima os munícipes e os cidadãos do património musical e dos músicos do Concelho.

Armando Côrtes-Rodrigues

Armando Côrtes-Rodrigues, folclorista, de Ponta Delgada

Armando Côrtes-Rodrigues, folclorista, de Ponta Delgada

BANDAS DE MÚSICA

Banda Lealdade

A Banda Lealdade de Vila Franca do Campo foi fundada em 1867, por altura da realização das magnificentes festas do Arcanjo São Miguel, evento religioso onde se estreou. Tem cerca de quatro dezenas de elementos com idades entre os 8 e os 53 anos e mantém em atividade uma escola com cerca de dez alunos. Realiza cerca de 30 serviços anuais. Em 1877, deslocou-se ao Vale das Furnas para cumprimentar o Senhor Conde da Silvã, por ocasião das entusiásticas manifestações que lhe foram rendidas em homenagem ao feito da sua ousada viagem a Lisboa numa chalupinha “Pérola dos Açores”. No ano de 1917, no certame filarmónico realizado na cidade de Ponta Delgada, a Banda Lealdade obteve o 1º lugar e 1946, alcançou grande êxito sob a regência do Tenente Francisco José Dias, nas Comemorações do IV Centenário da Cidade de Ponta Delgada, na grande parada de filarmónicas micaelenses.

Em 1967, comemorou o 1º centenário com Sarau Musico-Literário, no teatro de Vila Franca, com homenagem póstuma ao Maestro Francisco Vitor de Almeida. Em 1992, solenizou os 125 anos de existência com um Sarau Musical no Teatro Vilafranquense, com conferência e concerto dirigido pelo maestro Luís Gonzaga – Sargento-Chefe da Banda da Zona Militar dos Açores.

Em 2007, celebrou os 140 anos com um concerto comemorativo no Centro de Formação e Animação Cultural de Vila Franca do Campo. Efetuou deslocações a diversas ilhas dos Açores, a Portugal Continental e ao estrangeiro. Em 1987, efetuou uma digressão pelos Estados Unidos da América. Realizou intercâmbios com bandas do Arquipélago e de Portugal Continental. Participou no concurso de bandas filarmónicas intitulado de “Filarmonia”, organizado pela RTP e RDP Açores, tendo conquistado um honroso 1º lugar, no nível II. Em 2011, participou de novo, na ilha do Pico, no concurso Filarmonia, que teve lugar nas Sete Cidades, na sede da Banda da Madalena do Pico, onde conquistou o 1º lugar do nível I. Nos últimos anos do regime monárquico e nos primeiros da Republica, foi o Visconde da Palmeira o principal protetor da «Lealdade» oferecendo-lhe sede própria, e, em 1908, um fardamento e uma rica bandeira bordada a oiro.

Filarmónica Lira do Sul

Agremiação de grande importância para os habitantes da freguesia de Ponta Garça, a FLS foi fundada em 1896. Nos anos 80 do século passado, foram adquiridos instrumentos e fardamento oferecidos pela população da freguesia. Só em 2001 a Lira do Sul teve sede própria.

Desde essa altura, a filarmónica tem progredido muito, pelo que foi convidada duas vezes para atuar nos Estados Unidos da América, nas Grandes Festas do Divino Espírito Santo. Tem sido solicitada para participar em festas religiosas por toda a ilha de S. Miguel. Possui uma escola de música, onde várias dezenas de jovens se preparam para, no futuro, assegurarem a sua continuidade.

Igreja Matriz de São Pedro
Órgãos de tubos do concelho de Vila Franca do Campo [2]

De acordo com as informações de que dispomos, os órgãos de tubos existentes no Concelho são os seguintes:

[ Ilha de São Miguel ]

Igreja Matriz de São Pedro

Igreja Matriz de São Pedro

Igreja Matriz de São Pedro

Sabe-se que já existia uma igreja matriz de São Pedro em 1529 e que serviu de paróquia enquanto a igreja de São Miguel foi reconstruída após 1522. Décadas depois, numa carta régia de 3 de março de 1606, há notícia de que passou a incluir a paróquia de São Lázaro, transferida após uma visita pastoral que a encontrou quase em ruínas. Em 1746 beneficiou de importantes obras de reconstrução, que duraram até 1758, sendo a primeira missa celebrada a 2 de fevereiro desse ano. A atual Igreja Matriz de São Pedro foi fruto dessa reconstrução no séc. XVIII. Na fachada, tipicamente barroca, ostenta uma imagem do padroeiro em pedra, datada do séc. XVI.

A Igreja Matriz de São Pedro possui um órgão histórico da autoria de João Nicolau Ferreira, de data desconhecida, restaurado por Dinarte Machado Atelier Português de Organaria, em 2006.

Órgão da Igreja Matriz de São Pedro

Órgão da Igreja Matriz de São Pedro

Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo de Vila Franca do Campo

Igreja Matriz de Vila Franca do Campo

Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo

A Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo localiza-se na Vila e concelho de Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, Região Autónoma dos Açores, Portugal. É um dos templos mais antigos do arquipélago. A primitiva Igreja Matriz de Vila Franca foi instituída pelo próprio Infante D. Henrique, que ordenou a sua construção, tendo sido Rui Gonçalves da Câmara terceiro capitão do donatário da ilha, e seu primeiro residente, quem a edificou. Foi parcialmente soterrada pelo terramoto de 1522 e, de acordo com a narrativa de Gaspar Frutuoso, foi logo reconstruída, para cujas obras foram reaproveitados materiais de construção da primitiva igreja, além de apoios do monarca. Os trabalhos mantiveram o mesmo tipo arquitetónico do templo, em estilo gótico. Em 1579, o cardeal-rei autorizou o lançamento de uma finta para o lajeamento da igreja e do adro e, em 1585, a Ordem de Cristo autorizou o douramento da sua capela-mor. No contexto da Dinastia Filipina, tendo Vila Franca do Campo sido atacada por corsários, o templo conserva no alçado da sua torre sineira voltado para o mar a marca do impacto de um projétil de artilharia, tendo abaixo dele sido inscrita a data do ataque: 1624, mesmo ano em que a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais conquistou a cidade do Salvador, então capital do Estado do Brasil.

Possui um órgão histórico da autoria de Manuel Serpa da Silva, executado em 1900.

Botelho de Gusmão, A Identidade, 22 novembro 2010

O Órgão de tubos da Matriz de São Miguel Arcanjo foi construído por Manuel de Serpa da Silva, organeiro da Ilha do Faial, que havia aprendido este ofício na América, e que veio a construir diversos Órgãos, nomeadamente o da Matriz de Santa Cruz das Flores, em 1903; e os da Fazenda e da Matriz do Nordeste.

Foi aí colocado e inaugurado na Festa de São Miguel, a 14 de Maio de 1900. Há, porém, no livro de tombo, diversas referências que levam a concluir que sempre houve Órgão nesta Matriz. Assim resulta das visitas de 1674 e de 1798 e das diversas nomeações de organistas.

O coro alto actual, onde se encontra o Órgão, é de 1886, tendo vindo substituir o antigo coreto que existia entre a Capela-mor e a Capela do Rosário.

No livro do tombo encontra-se transcrita a acta da sessão extraordinária desse dia de festa, a 14 de Maio de 1900. Às 11.00 reuniu-se a Junta de Paróquia, a qual era composta pelo Presidente, Prior Jorge Furtado da Ponte, e pelos vogais: Pe. Jacinto Furtado de Couto, Jacinto Soares Botelho de Gusmão, Mariano Borges Soares, António José Raposo, Pe. Manuel Jacinto de Andrade Dias, José Maria de Sousa, António José Pacheco, e pelo Mestre de Capela de então, Urbano José Dias. Participaram ainda o Regedor, João Pereira de Mendonça, e todos os cavalheiros que auxiliaram na angariação de esmolas para a aquisição do Órgão. Foi aprovado um voto de louvor e agradecimento a todos os que contribuíram para a sua aquisição, tendo os seus nomes ficado registados. O total das despesas foi de 1.782$510 reis, estando já pagos 1.392$510 reis, ficando-se assim a dever ao construtor 380$000 reis. A sessão encerrou ao meio-dia, hora em que foi iniciada a solene festividade em honra do nosso Protector, momento no qual o Órgão tocou pela primeira vez.

Durante todo esse ano continuaram-se a recolher donativos, sendo interessante referir a subscrição feita entre os nossos emigrantes residentes na cidade do Pará. Já desde 1898 que, quer o Clero, quer os Músicos, dispensaram todas as gratificações que eram usuais à época pelas festas em favor do pagamento do Órgão. Foi assim com grande satisfação que, passado um ano, a Junta de Paróquia voltou a reunir-se na festa de São Miguel Arcanjo, dando por finda esta sua missão, uma vez que àquela data, 12 de Maio de 1901, encontrava-se tudo pago.

Os nossos antepassados, com grande esforço, do qual ainda hoje beneficiamos, mas com muito entusiasmo, adquiriram assim o imponente instrumento que, do coro alto da Matriz de São Miguel Arcanjo, volvido um século, voltou a soltar os seus acordes festivos a 5 de Novembro de 2005, readquirindo o esplendor que só os vilafranquenses do início do século XX haviam conhecido.

Nas últimas décadas, por diversas circunstâncias, estava o Órgão de Tubos quase votado ao abandono, interrompido de forma simbólica na festa de São Miguel, associando-o, com muito esforço, em cada seu aniversário, na homenagem ao Patrono da Ilha, que desta Igreja Mãe é venerado e celebrado de forma solene.

A recuperação do Órgão foi promovida pelo Mestre de Capela do Coro da Prioral Matriz do Archanjo São Miguel, com a autorização e cooperação da Comissão Fabriqueira, o apoio logístico da Câmara Municipal e o incentivo da Direcção Regional da Cultura, tendo o custo do restauro sido suportado, na íntegra, por essas duas instituições, e adiantado, a título de empréstimo, pelo Prof. Gabriel Cravinho.

O restauro foi entregue à Oficina e Escola de Organaria, com sede em Esmoriz, pelo Mestre-organeiro Eng. Pedro Guimarães, com a colaboração do Mestre-organeiro Harm Kirschner, vindo da Alemanha.

A Inauguração foi tocada pela distinta organista Dr.ª Ana Paula Andrade Constância, abrindo com o marcial Hino do Patrono da Ilha, seguida do Quis Ut Deus e de Solene Te Deum de Bordese, cantados pelo Coro da Prioral. Em jeito de concerto, foram tocadas várias peças, algumas com o precioso canto de Eulália Mendes. No final, cantou o Coro Litúrgico da Matriz de Ponta Delgada, encerrando, em conjunto com o Coro da Prioral, num total de noventa vozes, com uma Homenagem a Nossa Senhora da Paz, composta para a ocasião, e o Aleluia de Haendel.
Aquele Ano Pastoral, dedicado à dignificação do Domingo, dia do Senhor, relembrando aos cristãos a sua importância no encontro com Deus, enquanto dia de festa e de vida, teve na comunidade esse sinal de alegria na beleza que devolveu à Matriz os majestosos acordes desse centenário Órgão de Tubos, implicando mais participação no Coro, o seu regresso ao recato do coro alto da Igreja e maior qualidade no Canto, qualidades que, oferecidas na Liturgia, incentivam o íntimo encontro com Deus.