Mercúrio e Argos

MÚSICA À VISTA

Iconografia Musical no Mosteiro de Tibães

Flauta de Pan

Mercúrio adormecendo Argos

Mercúrio adormecendo Argos

Tela a óleo de José Teixeira Barreto Pintura Portuguesa (séculos XVIII-XIX) 110×91,5 cm Inventario nº402, Museu Soares dos Reis

Mercúrio, deus romano (Hermes, intérprete ou mensageiro –deus grego) toca Flauta de Pan para adormecer Argos Passoptes, gigante da mitologia grega.

José Teixeira Barreto, filho de Domingos Teixeira Barreto, pintor, dourador e riscador de talha, nasceu no Porto a 19 de março de 1763, iniciando a sua aprendizagem na oficina de seu pai, frequentando depois a Escola da Porta do Olival. Tomou o hábito beneditino no Mosteiro de S. Martinho de Tibães em 1782, adotando o nome de Fr. José da Apresentação. Durante esta fase inicial da sua vida fez várias pinturas para os mosteiros de Tibães e de Santo Tirso. Quando foi para Lisboa estudar Desenho na aula do professor Joaquim Manuel da Rocha passou a residir no Mosteiro de S. Bento da Saúde. Em 1790 viajou para Roma, para aperfeiçoar a sua arte, frequentando os museus de arte italianos e estudar com os mestres pintores italianos. Através do embaixador D. Alexandre de Sousa de Calhariz e Holstein, obteve a secularização. De regresso a Portugal, trouxe uma coleção de pintura que veio a constituir um museu no Mosteiro de Tibães, designado A Casa das Pinturas, que viria a ser o primeiro museu de pintura em Portugal. No final da vida o pintor pediu o seu reingresso na Ordem Beneditina. Porém, veio a falecer no dia 6 de novembro de 1810. Foi sepultado no cruzeiro da igreja do Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto. A coleção de Teixeira Barreto encontra-se atualmente no Mosteiro de Tibães. Integra o espólio do Museu Nacional de Soares dos Reis, fundado no Porto em tempos conturbados do liberalismo português, que recebeu os bens pertencentes aos conventos e mosteiros como Santa Cruz de Coimbra e S. Martinho de Tibães.

Charamela

Mercúrio e Argos

Mercúrio e Argos

Mercúrio e Argos, tela a óleo de autor desconhecido. (Séc. XVIII). Pintura Flamenga (?) 35,9×46,5 cm Inventario nº 760 Museu Soares dos Reis

Charamela é um aerofone de madeira, de tubo cónico e terminando com um alargamento semelhante a uma campânula de trombeta. É tocado por intermédio de uma palheta dupla que tem a singularidade de ser rodeada por uma pirueta, a pequena peça de madeira em que o instrumentista apoia os lábios quando toca.

Gaita de fole

O tocador da gaita de fole

O tocador da gaita de fole

A pintura com o presépio atribuído a Giovanni Battista Pachini, pintor nascido em Roma que viveu e trabalhou no Porto, onde faleceu em 1740, apresenta um jovem tocador de gaita de fole.

Os pastores visitando o Menino Deus surgem muitas vezes representados tocando a gaita de fole, um instrumento de festa e alegria. Este instrumento, associado à vida pastoril, era presença comum nas celebrações religiosas e populares. Na Missa do Galo, celebrada na noite de 24 para 25 de Dezembro, a gaita de fole era invocada mesmo quando não era tocada, sendo substituída pelo órgão que durante a missa intervinha imitando os sons pastoris da gaita de fole.

As gaitas-de-fole possuem um fole, que se insufla de ar e que tem ligado a si vários tubos: tubo insuflador (soprete) e um ou mais tubos sonoros: tubo melódico (ponteiro ou ponteira) e um ou mais bordões (“ronco” ou roncão). A conicidade do ponteiro, característica das gaitas-de-fole ibéricas atribui a este instrumento uma potência sonora relevante, devido à sua palheta dupla.

Anjo músico a tocar viola

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjo Músico no Mosteiro de Tibães, Braga

Lado esquerdo da Capela de Santa Gertrudes. Anjo de rosto juvenil, despido com asas em tons de vermelho e azul a tocar viola, um instrumento da família dos cordofones compostos, com caixa de ressonância, em que o som é produzido pela vibração de cordas beliscadas.

O declínio do alaúde e do cravo é associado à ascensão deste instrumento, um dos mais populares dos séculos XVI e XVII, muito representado na pintura retabular tardo-medieval, de iconografia mariana. A mãe esquerda assenta no braço do instrumento, pressionando as cordas nos respetivos trastes; os dedos da mão direita dedilham as cordas perto da boca da guitarra. A representação do instrumento é simples sem pormenores. O braço do instrumento não é proporcional ao tamanho do braço. Não é possível identificar o número de cordas do instrumento. A forma de execução está representada de forma correcta.

Anjo músico a tocar violino

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Lado direito da Capela de Santa Gertrudes. “Anjo de rosto juvenil, semidespido com faixa à volta da cintura e asas em tons de vermelho e azul a tocar violino, um Instrumento da família dos cordofones compostos com caixa de ressonância, em que o som é produzido pela vibração de cordas friccionados com arco.

De grande popularidade nos séculos XVII e XVIII, era designado em Portugal, até meados do século XX, como rabeca. A representação do instrumento não é fiel. A forma de execução representada também não é real, uma vez que o violino é tocado no lado oposto ao representado.”

Anjo músico a tocar trombeta reta

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjo Músico no Mosteiro de Tibães, Braga

Os anjos músicos executam música celeste e são representados a partir do final da Idade Média evocando, de algum modo, o Paraíso. Além do Juízo Final, estão representados nos episódios de glorificação de figuras sagradas, na Natividade, na Sagrada Família e na morte e visões dos santos.

Os instrumentos que os anjos tocam são, na generalidade, os de sopro, associados ao poder de Deus, os de cordas relacionados com a noção de harmonia do cosmos e os de percussão mais ligados à música profana, que surgem frequentemente integrados em motivos ornamentais.

Anjos tocando trombeta reta

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjos Músicos da Capela de São Bento

A Capela de S. Bento encontra-se na zona dos jardins do mosteiro desenvolvidos em socalco, com alguns bancos revestidos com azulejos seiscentistas e uma fonte ao longo do escadório barroco. A Capela apresenta um alpendre decorado com azulejos com padrão do séc. XVII, provavelmente provenientes das capelas da igreja, após renovação do programa decorativo da mesma, e cobertura de madeira pintada também datada do século XVII.

O interior da Capela mantém da decoração primitiva dois painéis de azulejo joanino, representando cenas da vida do orago e outros dois painéis de decoração. Um nicho rasgado na parede constituía o primitivo altar.

Os painéis estão decorados com 8 Putti – anjos músicos, simétricos tocando trombetas retas. A presença da trombeta no contexto sacro é inerente à ideia escatológica de final dos tempos, na medida em que é tangida pelos anjos músicos transportadores da mensagem de Deus. O seu elevado volume sonoro obtido pela vibração de uma coluna de ar, acorda os mortos e convoca todos para o dia do Juízo Final

A trombeta reta (sem pistões ou válvulas) é um aerofone de metal, de formato cilíndrico terminando em pavilhão.

Anjos tocando trombeta reta

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjos Músicos da Capela de São Bento

Anjos tocando trombeta reta

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjos Músicos da Capela de São Bento

Anjos tocando trombeta reta

Anjos Músicos no Mosteiro de Tibães, Braga

Anjos Músicos da Capela de São Bento

Órgão portativo

Gilberto de Hastings

Gilberto de Hastings

Gilberto de Hastings (séc. XII), primeiro bispo de Lisboa após a conquista da cidade aos Mouros em 1147. Segura na sua mão esquerda um órgão portativo, aerofone com teclado cujo som flautado era produzido por meio de foles propulsionados por duas alavancas. Na mão esquerda o Bispo Gilberto segura um relógio de sol.

Os órgãos portativos, fabricados entre o século XII e a segunda metade do século XVII, tinham pequenas dimensões e eram facilmente transportáveis em procissões, festas populares e pequenos conjuntos de câmara. Estes instrumentos funcionavam como um órgão de tubos ainda que muito simplificado. Na maioria dos casos, penduravam-se por meio de uma alça ao ombro do intérprete colocava em funcionamento os foles com a mão esquerda enquanto a mão direita accionava o teclado.

Fonte: Património Musical da Freguesia de Mire de Tibães, coord. Professora Elisa Lessa