MÚSICA À VISTA

Pormenores de Iconografia Musical no Concelho da Guarda
Anjo a tocar baixão, Guarda, créditos Sónia Duarte

Anjo a tocar baixão, Guarda, créditos Sónia Duarte

“O pintor deveria conhecer o instrumento baixão, mas nunca o terá visto a ser tocado, porque o representa ao contrário com a campânula para baixo e o anel de latão para cima” (João Mateus).

Sónia Duarte afirma: “é possível que o tenha representado de visu ou por fonte gravada, à semelhança dos outros instrumentos que integram a mesma pintura sobre madeira. Coexistem: uma harpa, uma viola e notações musicais – quadrada num dos livros abertos e mensural, noutro. Denotam uma série de erros pela mão de um pintor regional (espanhol?) de poucos recursos. No caso, uma das mais de duas dezenas de representações deste instrumento em espaços sacros que tenho vindo a levantar ao longo das minhas jornadas de campo no âmbito da minha tese doutoral sobre as Representações Musicais na Pintura Barroca em Portugal.”

Pormenor de pintura da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres do Porco

Pormenor de pintura da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres do Porco

O painel encontra-se na parede lateral da capela-mor, do lado do Evangelho, na igreja anteriormente designada de Nossa Senhora dos Prazeres do Porco.

Trata-se de uma provável encomenda de Estêvão de Matos, um criado, escudeiro e “corregedor” chanceler da corte de D. João III, que jaz nesta igreja, como se pode ler in situ «AQUI JAZ ESTÊVÃO DE MATOS E SVA MOLHER ISABEL GILL O QVAL FOI CRIADO DOS REIS DOM MANUEL E DOM JOÃO III E FOI CHANCEREL [sic] E PROMOTOR DE JUSTICA EM A CORREICÃO DA GUARDA O QVAL FALECEO NA ERA DE MIL QUINHENTOS E SESSENTA», adivinhando-se o papel preponderante que o nobre deverá ter tido naquela vila ou na região da Guarda, por altura do episcopado de Dom Jorge de Melo (1519-1548).

A composição representa a Virgem com o Menino num ambiente de hortus conclusus, “coroada” por anjos e ladeada por outros, músicos. Relativamente aos aspectos musicais, onde são visíveis inúmeros erros organológicos, representa-se, primeiramente, um duo de charamelas facilmente identificáveis pela presença de uma fontanela ou barrilete, peça de madeira fina que envolve e protege a chave exposta no tubo cónico de madeira.

Apesar da pintura se encontrar em lugar alto, impossibilitando uma fotografia frontal rigorosa (ainda que tenhamos usado alguns recursos), é possível perceber que cada tubo apresenta nove orifícios (!) e que existe, em cada uma delas, uma pirueta. Do lado oposto, representa-se um pequeno alaúde, de braço estreitíssimo, sobre o qual se dispõe treze cordas e que se estendem sobre o tampo harmónico. Por último, um anjo marca a solfa por um pergaminho onde já não é perceptível parte do pentagrama nem do texto, e, por ora, impossível decifrar o seu significado.